A mão estendida, orgulhosa!

A língua não é propriedade do Estado, sim património da Nação, porque é a essência anímica da Pátria. É por ela que nos distinguimos de outros povos, é por ela que formamos o nosso modo sentimental de ser. A gramática é sua espinha, a ortografia apenas a sua pele. O Estado não tem o direito de impor o modo de falar, porque a tanto se opõe o foral livre do seu Povo. Por mais amanuenses do verbo, burocratas do dicionário, escribas arvorados em escreventes, ela viverá, uma vida própria, mutante, terra de liberdade e de pujante vitalidade. 
Por tudo isto sou contra o Acordo, recusar-me-ei ao Acordo. Nem que seja o último a escrever com erros de palmatória, estenderei, orgulhoso, a mão!

Um boum xeforço

Definitivamente vou resolver comigo esta do Acordo Ortográfico. Primeiro, não tenciono respeitá-lo! Segundo, vou dar-me a liberdade de inventar uma gramática que não precisa de ser inventada, puramente fonética, em que se escreve como se ouve. E achim axo ca milore maneira dum óme ça fajer cumprender inda é esta daxer o Tóino magala caescrebe à xua cumberçada Mariajinha uas cartinhas damôri xinssero e ca ça leiem a modos caxim. Xa num gustarem daler num digam canão é um boum xeforço.

A Cidade do Mistério

Reconheça-se. Talvez tenha sido com o Aquilino Ribeiro que pela última vez se colocou a questão do vocabulário, da terminologia e da nomenclatura na língua portuguesa, em suma, que vantagem há e se problema não há em usar-se na sua máxima extensão as potencialidade que o verbo lusitano oferece. Um amigo meu que faz dos palavrões forma de exprimir sentimentos, dizia, a justificar-se ante aquilo em que uma pertinaz escuta telefónica o surpreendeu, que usava o léxico português em tudo quanto ele permitia, nisso incluindo a linguagem vicentina.
Por causa do Gomes Leal, cuja biografia sigo, reencontrei, na inesperada estante de amarelecidos livros que me ladeia nesta casa cercada de Natureza onde veraneio, um Alexandre Herculano, um Camilo, mesmo um Guedes Amorim e um João Ameal. E não faz dúvida que hoje os nossos melhores escritores não estão muito além dos piores desse tempo. Saberão criar sensações ou arquitectar enredos, terão a capacidade de tornar narrativas em ideias. Mas o uso profundo da língua e toda a sua panóplia de utensílios, esse perdeu-se.
Esperando na «insipidíssima e materialíssima Rua dos Fanqueiros», Gomes Leal lembra a Guerra Junqueiro, morto, a sua promessa de que daria notícias: «Prometeste, ó dilecto amigo, ó singelo Buda dos Algarves, gandaeiro de Quimeras, triste pelingrino da Ilusão. humilde filho das ervas, irmão das violetas, amigo das andorinhas! - escrever à Mocidade, quando de encontrasses nas alamedas estreladas que vão desembocar na Cidade do Mistério, e de lá nos mandares saudades, ou novas tuas, ou recados...».

A gíria e o calão

Criptografado, o calão começou por ser a linguagem do fraco contra o poderoso, do conspirador contra o tirano. Di-lo Aquilino Ribeiro na sua apresentação ao livro de Albino Lapa, o Dicionário de Calão que filei num alfarrabista 
É um livro risonho, de palavars que estalam no ar como chicotes. Não é só a língua chula e de viela, é o étimo perfeito do linguajar popular, zombeteiro e altaneiro, pulante e pilha quando não desarranchado e vadio. É o português onomatopaico e singular que nenhum Acordo torna ortográfico, nenhuma Academia borla de doutorice. Não é o português retórico nem de escrivães, falar de escreventes ou de serventes.
Não é a língua de trapos, gaga quando entaramelada, nem a língua de palmo, sofrida e revista, limpa de gralhas e idiotismos mil.
É a gíria e com ela o giro, o passeio da Pátria de fala pela Nação que sabe ler.

Pechinchinho

É carinhoso esse mundo dos diminutivos. Partilhamo-lo com os galegos. Um estudo linguístico talvez nos conduzisse e encontrar na morfologia das terras ou na antropologia física das gentes essa razão: onde termina a geografia começa a zoologia humana. Nesta citação, de 1926, de uma obra do Padre Ernesto Ferreira sobre a alma do povo micaelense, cruzei-me, porém, com a carinhosa expressão do carinho: «necessário é, porem, confessar que de todos os diminuitivos o mais carinhoso é o adjectivo pechinchinho ou chichinho. e não tem sabor tam agradavel esta palavra, que diz o mesmo, e talvez melhor, que pequenino?».
Então digam-me que não é magnífico e bom um pechinchinho momento de atenção, nem que seja descobrir no que dizemos o melhor do que poderíamos ter dito?

La polareda

Voltei ao mirandês, ao livro Las Cuntas de Tiu Jouquin. Li outro conto, de novo a soletrar as palavras, a ouvi-las como um murmúrio dentro dos ouvidos, a tomar-lhes a grafia. Desta vez foi uma história de guardas e de contrabandistas, de despovoamento, do virar do tempo, o relatório «dua tierra zaparcida». Já disse que o autor escreve sob um pseudónimo, o de Francisco Niebro. Lia o narrador tudo o que podia, livros velhos, livros de igreja. «Molhaba l dedo andicador na léngua e ibalos çfolhando debagarico, mas la polareda era tanta que yá me sabie na boca a chapéu bielho».
La «polareda», o pó, em que tudo se torna, mesmo a arrogância das línguas nacionais, ditatoriais. «"... L mirandés ye ua lhéngua que se eidentefica cun personas. Ten rostros». Sim.Tem rosto, tem alma, tem um extraordinário modo de ser.

Pertués pul meio

Há tanto que se perde na vida, tanto que se encontra por acaso. Foi hoje no Círculo das Letras, ali à Óscar Monteiro Torres, porque merendámos perto, um pai e seus três filhos. Lá estavam, discretos, fruto de uma editora que entretanto soçobrou, a Campo das Letras. Escritos em língua mirandesa. Livros. Trouxe um deles, maravilhado: Las Cuntas de Tiu Jouqin, escrito por Francisco Niebro, nome literário de um assistente da Faculdade de Direito.
Magnífica língua esta: «cque me lembra, siempre fui boubico por cuntas. Squecie-me a oubir-las. Mie bó Ana, mie mai e miu pai cuntórun-me muitas. Mas, quando penso en cuntas, lembra-me simpre tiu Jouqin. Moraba a la mie puorta e yá l conheci biello».
O livro lê-se foneticamente, como se italiano fosse, para que a sonoridade baile nos ouvidos. Das narrativas só a última é da autoria do Tiu Jouquin, as outras são ficções em sua homenagem. Ouvidas na língua de Sendin, o Tiu «cuntaba-las siempre an sendinés, mas as la bezes ponie-le uas bozes de pertués pul meio quando falava Dius ó algue pessona amportante».

Problemas de crescimento

Tenho uns alertas no Google para saber o que vai acontecendo nas áreas que me interessam ou naquelas de que não me posso desinteressar. Um dos alertas refere-se ao que vai havendo sobre «advogados». Ora eis a razão pela qual ainda consegui o que se chama uma barrigada de riso. A notícia vinha assim: «Advogados do Minhocão da Rocinha são funcionários do vereador Claudinho da Academia».
Espantosa língua de facto! Advogados... do Minhocão... da Rocinha, lol lol, super lol !
Morto de riso, quase sufocado de tosse, que isto das alergias não dá alegrias, fui ver o que se passava em matéria de Minhocão. A notícia, como toda a boa notícia que se preza, esclarece: « Os advogados que assinaram o pedido de liminar para que fosse impedida a demolição do prédio conhecido como Minhocão, na Rocinha, são servidores públicos comissionados, nomeados no gabinete do vereador Claudinho da Academia (PSDC)».
Pronto! O Minhocão é um prédio. Ah! Ecco! Vendo por aqui, percebe-se o porquê de tal nome.
Só que o riso ainda haveria de voltar, mostrando que não há tristeza que sempre dure. A notícia remata: «Apresentamos este projeto em 2007. Mas até hoje não foi votado. Enquanto isso, a Rocinha foi crescendo. Se não parar de crescer, a Rocinha não vai ter mais jeito - reclama».
Claro: Rocinha não pode crescer mais, depois de tanto ter crescido o Minhocão. Faz sentido. Um bom dia para todos.

Familiaridades

Rodrigues Lapa, mestre linguista, chamou-lhe o pronome perdido, o vós. Antigamente era o designativo cerimonioso, substitutivo da segunda pessoa do singular. Mas, explica o autor da Estilística Portuguesa que «em certas regiões nortenhas, não há muito, se dava o fenómeno inverso com os namorados. Quando o namoro estava pegado, rapazes e raparigas, que se tratavam normalmente por tu, começavam a tratar-se cerimoniosamente por vós, para dar a entender aos outros que não havia entre si familiaridades comprometedoras».

Um armistício de silêncio

Lia esta manhã, sem augurar o que me esperava, o Reinaldo Ferreira. Era o tempo em que para se ser jornalista era preciso escrever bem. O livro são as aventuras extraordinárias do repórter Kiá, assim cognominado depois de uma vida a indagar «Que há?».
Li, extasiado pela escrita, tão adequada ao ambiente, necessária ao cenário, indispensável a criar contexto, hipnotizado pela narrativa.
Na tasca do Forca, ei-lo o Guapo, «descapturando-se dos braços de Dona Fitas», ela «em curto-circuito de ciumeira», ele o «noctívago excursionista», o «galã-apache atrelado a fêmea». Faltava à história D. Álvaro Medeiros e sua «dama berrante» para tudo terminar em sangue, mortas a dama e a gigolette. O crime surge não muitas páginas adiante. Entre a trapeira e o Avenida Palace, «um armistício de silêncio no meio da algazarra».

Lamento

Lamento, pelos leitores, as gralhas, os erros de concordância, as frases sem nexo, as trapalhadas de estilo. São o fruto da desatenção, do descuido, do cansaço, da ignorância. Muitas vezes só dou conta depois de alertado e mesmo assim não é à primeira que reparo. Lamento por mim ser eu o autor de tudo isso que desfeia a escrita, menoriza quem escreve, maça quem lê. A espantosa língua merecia mais amor, mais dedicação, mais respeito. Há alturas em que prometo emendar-me; outras tenho sorte e sai tudo impoluto. Hoje tem sido uma desgraça de asneiras, um desatino de disparates.

Os cantos do quarto

Fazer com que a ideia motora, a que explica o insólito e dá finalmente coerência à ideia, possa surgir aposta de seguida ao vazio lógico, para que o leitor a experimente como se ensaisse rolha em gargalo, supõe uma mestria que não está ao alcance do escrever ao acaso da imaginação.
«Certa noite, a mãe da criança entrou no quarto, olhou para o berço e viu-me sem cabeça».
Surge assim, meio Kafka, meio Poe, este noção aterradora, na escrita de Carlos de Oliveira.
«Sem cabeça», pergunta-se ele escritor, fazendo-se eco do grito de surpresa do seu leitor.
Segue-se a resposta. Por etapas, patamar a patamar no edifício da Razão, infestado pelas ratazanas do horror.
Primeiro, a tranquilidade de estamos no campo da ilusão. «O quarto mal iluminado, as cortinas do berço corridas, deram-lhe essa impressão».
Depois, a irrupção da realidade, tão brutal como que se julgara ter sido o verdadeiramente acontecido. «Desatou a gritar. A aranha era redonda, media mais de um palmo e cobria-me a cara toda».
É isto que faz perceber que estamos ante um grande escritor, a exigir um grande leitor, aquele que não espera que lhe expliquem, idiotizando-o, que o não ver faz pensar por vezes no não existir o que não se vê.
Ah! tudo termina domesticamente. «A criada apareceu, esborrachou-a com a vassoura». Só que a vida é mais rica do que a capacidade de a matarmos. «Quando a carcaça rebentou, saltaram os aranhiços. Uma dúzia a fugir para os cantos do quarto».
É Finisterra, Paisagem e Povoamento.

Votos e bençãos

Segundo o Dicionário da Academia, a expressão «fazer votos» rege as preposições – de: «(fazer) votos de boas festas»; – para: «fazer votos para que tudo corra bem». – por: sem exemplo.
Ora eu que recebi tantos e formulei um pouco menos «faço votos que»! Que nestas alturas é como nas eleições, abençoadas seja, vai tudo a votos!
Uma pessoa mete-se com o Dicionário da Academia e faz votos por aprender a escrever, mesmo que sejam postais de fim de ano...

Não só de justiça vive o homem

Não será só a toponímia portuguesa. Mas a nossa torna-se mais gritantemente visível e motivo mais directo de riso. Depois de dois dias de pousio esta manhã a net trouxe-me esta notícia: «A prefeita Izabel Cristina Campanari Lorenzetti, o juiz de direito da 2ª Vara, Mário Ramos dos Santos e o presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) Antonio José Contente vão se reunir com o Secretário da Justiça e da Defesa da Cidadania, Luiz Antonio Guimarães Marrey, para reivindicar a instalação da 3ª Vara em Lençóis Paulista. A audiência está agendada para o dia 14 de janeiro em São Paulo».
Ora assim é que é! Um tribunal entre lençóis, a fantasia de qualquer jurista dorminhoco ou que, para além de justiça, queira um pouco de amor. Bom Ano!
ET: Não acreditam? Vejam aqui.

O nunca ter visto

Ao Brasil deve Portugal a graça de o português ter passado a ter graça.«Nunca dos nuncas vira o Rio de Janeiro», escreve Machado de Assis a propósto de D. Evarista da Costa e Mascarenhas, viúva de um juiz-de-fora e actual consorte do Dr. Simão Bacamarte, médico que deu em alienista e é um personagem de excelência num conto que é a garantia de duas horas bem passadas. Ora aí está uma forma adejante de dizer o que aqui na Mãe Pátria em linguagem camelídea se diria: «jamais»! Ah! Lê-se «jámé». Não é francês! É para os da margem sul!