Em matéria do que se chamou "Acordo Ortográfico", sou contra. Absolutamente contra. Nem morto de morte matada ou morrida.



A fonética e uma revolução social


A foto vinha no muito interessante suplemento de fim-de-semana do Jornal de Negócios. Os portugueses chamavam-lhe foneticamente os gelados "Esquimó", mas o nome era "Esquimaux". 
O jornal informa que nos anos trinta eram produzidos pela Fábrica de Gelados Sibéria o que tornava óbvia a origem e garantia a refrigeração, atraindo talvez a suspeita da polícia política.
Depois, continua o periódico vieram os inocentes Rajás e os populares Olá's.
Do que li ficou-me a ideia de uma forma fonética de falar kivitaria cus profeçoures déçem tantus errus na proba dabaliação e evitaba sobretoudo o acourdo ortugráfico. I nivlava as classes suciais kaçanão nutavam plumodo de falar. Uma revolução social, em suma.

O risonho epíteto


Há livros que têm destinos cruéis. A este, que ao meio da tarde, dava eu o giro desenfastiante ao quarteirão, se cruzou comigo na Livraria Lumière, cujo último catálogo traz na capa uma fotografia do José Rodrigues Miguéis mais um advogado que se exilou na Literatura e, no caso dele, na América, assim sucedeu: foi editado em 1974 o ano destinado a tudo menos a trazer a lume um dicionário dos sinónimos.
Talvez a segunda parte do pós-titulo se ajuste a esse turbulento tempo, porque proclama ser «poético e de epítetos da língua portuguesa». E epítetos é o que, de facto, começou a generalizar-se a partir de então, ida a Censura e o tento na língua.
Folheei-o, porque uma obra destas, é para se ler quando faz falta - e quantas vezes não está então "à mão de semear" - mas antes de o ir juntar na estantes onde agora outros seus familiares jazem o sono dos justos, abri-o e logo no momento irónico e risonho do mesmo, acerca da distinção entre "injúria" e "ultraje".
Depois de definir injúria como ser o que «apresenta a ideia de agravo violento, feito às qualidades pessoais de alguém» e explicar, em contraponto que o ultraje «apresenta a ideia de vilipêndio público em deterimento de alguém», os autores, J. I. Roquete e José da Fonseca, dão dois exemplos, dos quis o segundo é de facto risível na sua subtileza humorística: «Tratar de feia a uma mulher formosa é um agravo que, quando muito, não deverá passar de injúria, porém haverá poucas que o não tenham por ultraje».

O tronco comum, a língua poética


Impressionou-me ler quanto li, a origem, a expansão, o definhamento e o ressurgimento de uma língua. De um tronco comum nasceu o galaico-português. Depois, o português autonomizou-se e difundiu-se enquanto o galego ficou confinado a ser dialecto que o autoritarismo do castelhano chegou a tentar impedir como forma de expressão escrita.
Pilar Vázquez Cuesta editou esta monografia em 2002. Lia- ontem à noite com um sentimento de comovida contrição, a que surge ante algo que nos transcende e de tão íntimo como a linguagem que nos dá forma ao sentir e ao pensar.
«Nascido como uma forma inovadora e revolucionária de falar latim na antiga Gallaecia romana (que abrangia, além da Galiza de hoje, as actuais províncias portuguesas de Minho e Trás-os-Montes), com a Reconquista, o galego avançou para o Sul, sobrepondo-se a dialectos moçárabes mais conservadores, que acabaria por substitir mas nele deixaram pegadas indeléveis», assim abre a narrativa.
«Mas [continua um pouco adiante] «enquanto que, por não ter consigo albergar a capital no seu seio, este último [o português] não passaria de uma variedade regional do espanhol, a versão centro-meridional do galego, com o estabelecimento a partir de meados do século XIII da capital em Lisboa, atingirá a categoria de língua nacional, normativa para todos o Portugal. E virá a ser muito diferente o futuro dos dois ramos - galego e português - do primogénito tronco comum, cuja unidade fora acentuada e preservada durante mais de dois séculos por uma mesma língua poética: o galaico-português dos Cancioneiros medievais».
Assim o português tornou-se língua de Império, o galego de região. A Nação é, porém, a mesma. Idos os Borgonhas fizemo-nos ao mar. A terra de Santiago definhou às mãos dos Trastâmara.

Falsos cognatos e outros libertinos


Ora diga quem souber o que são "cognatos". São palavras que têm raízes comuns. Mas é preciso muito cuidado. Porque, no domínio da linguagem, tal como no mundo dos bípedes falantes, existe a malandragem dos falsos cognatos.
Para prevenir os mais incautos e ante o perigo de termos fronteira desguarnecida, eis os falsos aqui do lado. Estão aqui. Guardar para uso falante corrente.
Há, exemplo entre tantos, que anotar que as nossas «cuecas» equivalem aos «calzoncillos» ou às «bragas», já que o radical é diverso, embora o local onde o verbo assenta seja comum, o que abre a dúvida quando a «desbragado» poder ser o rabo-ao-léu dos "sans cullotes" que com Junot, Massena e Soult nos chegaram, de armas na mão sedentos de pilhagem, ou o libertino, fonte de pilhéria, que passeia por Braga, a idolátrica, o seu esplendor [e ver aqui]

A papiação em patuá...



É o patuá de Macau, dialecto de lonjura e nostalgia.

«Dóng dóng-dóng. dóng-dóng Sium Capitám.

Ispada na cinta Co rota na mám.

Ade tá guní Já cai na quintal.

Chácha vêm cudí.

Suzá su avental

Balichám salgado.

Tacho ta fritá;

Nôs pobre-limpado.

chubí pám tocá.

Drêto sã Mui-Mui.

Co róta rutiá;

Nhum olá amui, Senti mám cuçá

Chico papaia perna can-can Nhónha erguí saia, Chico cai na chám.»

[texto integral aqui, incluindo versão cantada]

Muller


Somos nós mais a doçura carinhosa da Galiza, com quem somos uma só Nação, num poema sobre a mulher [muller], a fonte eterna do duradouro sentir, mesmo que da precária sensação.


«Tan só muller en pozo de dozura.
Remansado sanguear, o fuxitivo
do tempo, xa os sentidos me dobrega.

Muller pola ansiedade. Desde a cima,
vestida de luceiros. De arociris.
Iconos doces en oscuros túneles.

Luas lascivas. Sede encarcerada.
Cinzas serenas, surtidor de fábulas,
pebeteiros en claves plenilunios.

Cimento da morriña amamantándose
un amarelo sol con luz de enigma,
o "si" e o "non" tremando na ternura.

Lume en rescoldo xa. Muller transida
daquelas maravillas en conxuro,
desfollo os "non me olvides" nas corolas.»

Tudo o mais aqui. Escreveu Pura Vázquez

A Gramática Portuguesa à procura de Ruben A.


Transcrevo tal qual consta do convite que está a ser divulgado:

«A Sociedade de Língua Portuguesa leva a efeito no próximo dia 30 de Abril de 2013 , terça-feira, pelas 20 horas, no Hotel Açores Lisboa, Av. Columbano Bordalo Pinheiro, 3, em Lisboa (esquina com a Praça de Espanha), um jantar temático "À Mesa com José António Barreiros", autor de vários livros nas áreas jurídica, ficção e ensaio histórico, que proferirá uma conferência subordinada ao tema "A Gramática Portuguesa à procura de Ruben A."
O preço do jantar, em regime de bufete, sentados, com bebidas incluídas é de 22 euros.
Marcação até ao dia 26 por sms para os telefones 914132418 ou 968099698, ou por email para jantarestematicosslp@hotmail.com

Com os meus cumprimentos
Benjamim Monteiro»

"Indústria" bancária...

Nada como uma boa terminologia, o politicamente correcto, a nomenclatura a legitimar a ideologia. É por isso que as palavras não são inocentes. Horta Osório, o golden boy do Lloyd's, numa entrevista a que imprensa financeira deu grande relevo, referia-se à actividade bancária como uma "indústria"!
Indústria? Mas acaso produz algum bem, coisa que se materialize, trabalho que se veja, ou é apenas um comércio, o negociar com tempo e, por isso, actividade considerada já pecado pela própria doutrina Católica - pois que o tempo, segundo ela, é algo que só a Deus pertence [vide São Tomás, o aquinense, aqui]?
Mesmo deixando os recônditos - afinal tão volúveis - do que da religião decorre, de facto, "indústria bancária", só mostra a necessidade de esconder pelo termo correcto a consciência da incorrecção.

Ficaram-me os olhos

«Ficaram-me os olhos» escrevi há pouco, uma daquelas frases que se usam sem pensar porquê, talvez porque vindas da infância doméstica ou da escola onde nos ensinam a ler, ou do liceu quando nos estimulam a não desistirmos de ler. Em alguma boca, em alguma página a vi que são ditos que não se adivinham. Não é em rigor a expressão castelhana "se le iban los ojos", embora com ela comungue um pouco a ideia. Na nossa, os olhos ficam como se presos a algo que, desejado, deixámos para trás, ao não o termos, querendo-o, na dos nossos vizinhos há um irem eles naquilo que, apetecido, foi seguindo o seu caminho, deixando-nos. É a diferença entre o inalcançado e o inalcançável. Assim se compreende a saudade portuguesa, anseio de casa, desejo de colo.

Bilhostre

Veja-se o que é a potência de uma língua que permite a Manuel Teixeira Gomes - exilado Presidente convertido, enfim à escrita - numa carta escrita a João de Barros dizer que havia chegado enfim o momento de descrever o que tinha sido a sua vida pela sua pena «matéria preferível à que dariam os perfis dos canalhas, bilhostres e malandrins, com quem tive de me haver no decurso desta minha já tão longa e acidentada vida».
Dois anos inquilino forçado no Palácio de Belém, vindo da Embaixada em Londres, referia-se aliás a esse período como o do «extenso lodaçal».
Guardem-se, pois, as palavras, como pedras, para uma primeira necessidade em caso de aperto!

A recusa de ser minúsculo

Hoje fui cuidar do meu jardim, tratando de um dos blogs onde o matagal cresceu, este. Dediquei-o à língua portuguesa. O desejo nasceu de um acto revoltoso de vontade, o recusar-me a escrever Domigo com D minúsculo, porque os dias da semana têm uma história de sacralidade que é incompatível com os que, como se numa esquadra de polícia, tornam o pulsar da vida o preenchimento de um formulário. Ainda por cima, o Domingo, dia sagrado para quem tem Fé, dia da liberdade para os que trabalham. Logo hoje que o Sol alumia as ideias.

A mão estendida, orgulhosa!

A língua não é propriedade do Estado, sim património da Nação, porque é a essência anímica da Pátria. É por ela que nos distinguimos de outros povos, é por ela que formamos o nosso modo sentimental de ser. A gramática é sua espinha, a ortografia apenas a sua pele. O Estado não tem o direito de impor o modo de falar, porque a tanto se opõe o foral livre do seu Povo. Por mais amanuenses do verbo, burocratas do dicionário, escribas arvorados em escreventes, ela viverá, uma vida própria, mutante, terra de liberdade e de pujante vitalidade. 
Por tudo isto sou contra o Acordo, recusar-me-ei ao Acordo. Nem que seja o último a escrever com erros de palmatória, estenderei, orgulhoso, a mão!

Um boum xeforço

Definitivamente vou resolver comigo esta do Acordo Ortográfico. Primeiro, não tenciono respeitá-lo! Segundo, vou dar-me a liberdade de inventar uma gramática que não precisa de ser inventada, puramente fonética, em que se escreve como se ouve. E achim axo ca milore maneira dum óme ça fajer cumprender inda é esta daxer o Tóino magala caescrebe à xua cumberçada Mariajinha uas cartinhas damôri xinssero e ca ça leiem a modos caxim. Xa num gustarem daler num digam canão é um boum xeforço.

A Cidade do Mistério

Reconheça-se. Talvez tenha sido com o Aquilino Ribeiro que pela última vez se colocou a questão do vocabulário, da terminologia e da nomenclatura na língua portuguesa, em suma, que vantagem há e se problema não há em usar-se na sua máxima extensão as potencialidade que o verbo lusitano oferece. Um amigo meu que faz dos palavrões forma de exprimir sentimentos, dizia, a justificar-se ante aquilo em que uma pertinaz escuta telefónica o surpreendeu, que usava o léxico português em tudo quanto ele permitia, nisso incluindo a linguagem vicentina.
Por causa do Gomes Leal, cuja biografia sigo, reencontrei, na inesperada estante de amarelecidos livros que me ladeia nesta casa cercada de Natureza onde veraneio, um Alexandre Herculano, um Camilo, mesmo um Guedes Amorim e um João Ameal. E não faz dúvida que hoje os nossos melhores escritores não estão muito além dos piores desse tempo. Saberão criar sensações ou arquitectar enredos, terão a capacidade de tornar narrativas em ideias. Mas o uso profundo da língua e toda a sua panóplia de utensílios, esse perdeu-se.
Esperando na «insipidíssima e materialíssima Rua dos Fanqueiros», Gomes Leal lembra a Guerra Junqueiro, morto, a sua promessa de que daria notícias: «Prometeste, ó dilecto amigo, ó singelo Buda dos Algarves, gandaeiro de Quimeras, triste pelingrino da Ilusão. humilde filho das ervas, irmão das violetas, amigo das andorinhas! - escrever à Mocidade, quando de encontrasses nas alamedas estreladas que vão desembocar na Cidade do Mistério, e de lá nos mandares saudades, ou novas tuas, ou recados...».

A gíria e o calão

Criptografado, o calão começou por ser a linguagem do fraco contra o poderoso, do conspirador contra o tirano. Di-lo Aquilino Ribeiro na sua apresentação ao livro de Albino Lapa, o Dicionário de Calão que filei num alfarrabista 
É um livro risonho, de palavars que estalam no ar como chicotes. Não é só a língua chula e de viela, é o étimo perfeito do linguajar popular, zombeteiro e altaneiro, pulante e pilha quando não desarranchado e vadio. É o português onomatopaico e singular que nenhum Acordo torna ortográfico, nenhuma Academia borla de doutorice. Não é o português retórico nem de escrivães, falar de escreventes ou de serventes.
Não é a língua de trapos, gaga quando entaramelada, nem a língua de palmo, sofrida e revista, limpa de gralhas e idiotismos mil.
É a gíria e com ela o giro, o passeio da Pátria de fala pela Nação que sabe ler.