Em matéria do que se chamou "Acordo Ortográfico", sou contra. Absolutamente contra. Nem morto de morte matada ou morrida.



O risonho epíteto


Há livros que têm destinos cruéis. A este, que ao meio da tarde, dava eu o giro desenfastiante ao quarteirão, se cruzou comigo na Livraria Lumière, cujo último catálogo traz na capa uma fotografia do José Rodrigues Miguéis mais um advogado que se exilou na Literatura e, no caso dele, na América, assim sucedeu: foi editado em 1974 o ano destinado a tudo menos a trazer a lume um dicionário dos sinónimos.
Talvez a segunda parte do pós-titulo se ajuste a esse turbulento tempo, porque proclama ser «poético e de epítetos da língua portuguesa». E epítetos é o que, de facto, começou a generalizar-se a partir de então, ida a Censura e o tento na língua.
Folheei-o, porque uma obra destas, é para se ler quando faz falta - e quantas vezes não está então "à mão de semear" - mas antes de o ir juntar na estantes onde agora outros seus familiares jazem o sono dos justos, abri-o e logo no momento irónico e risonho do mesmo, acerca da distinção entre "injúria" e "ultraje".
Depois de definir injúria como ser o que «apresenta a ideia de agravo violento, feito às qualidades pessoais de alguém» e explicar, em contraponto que o ultraje «apresenta a ideia de vilipêndio público em deterimento de alguém», os autores, J. I. Roquete e José da Fonseca, dão dois exemplos, dos quis o segundo é de facto risível na sua subtileza humorística: «Tratar de feia a uma mulher formosa é um agravo que, quando muito, não deverá passar de injúria, porém haverá poucas que o não tenham por ultraje».