Em matéria do que se chamou "Acordo Ortográfico", sou contra. Absolutamente contra. Nem morto de morte matada ou morrida.



A Cidade do Mistério

Reconheça-se. Talvez tenha sido com o Aquilino Ribeiro que pela última vez se colocou a questão do vocabulário, da terminologia e da nomenclatura na língua portuguesa, em suma, que vantagem há e se problema não há em usar-se na sua máxima extensão as potencialidade que o verbo lusitano oferece. Um amigo meu que faz dos palavrões forma de exprimir sentimentos, dizia, a justificar-se ante aquilo em que uma pertinaz escuta telefónica o surpreendeu, que usava o léxico português em tudo quanto ele permitia, nisso incluindo a linguagem vicentina.
Por causa do Gomes Leal, cuja biografia sigo, reencontrei, na inesperada estante de amarelecidos livros que me ladeia nesta casa cercada de Natureza onde veraneio, um Alexandre Herculano, um Camilo, mesmo um Guedes Amorim e um João Ameal. E não faz dúvida que hoje os nossos melhores escritores não estão muito além dos piores desse tempo. Saberão criar sensações ou arquitectar enredos, terão a capacidade de tornar narrativas em ideias. Mas o uso profundo da língua e toda a sua panóplia de utensílios, esse perdeu-se.
Esperando na «insipidíssima e materialíssima Rua dos Fanqueiros», Gomes Leal lembra a Guerra Junqueiro, morto, a sua promessa de que daria notícias: «Prometeste, ó dilecto amigo, ó singelo Buda dos Algarves, gandaeiro de Quimeras, triste pelingrino da Ilusão. humilde filho das ervas, irmão das violetas, amigo das andorinhas! - escrever à Mocidade, quando de encontrasses nas alamedas estreladas que vão desembocar na Cidade do Mistério, e de lá nos mandares saudades, ou novas tuas, ou recados...».