Em matéria do que se chamou "Acordo Ortográfico", sou contra. Absolutamente contra. Nem morto de morte matada ou morrida.



Promovendo a diversificação

Repetições inúteis, redundâncias semânticas, há no falar quotidiano dúzias. Os puristas têm horror a elas e censuram quem as usa.
Mão amiga fez-me chegar ontem uma lista de exemplos: elo de ligação - acabamento final - certeza absoluta - quantia exata - nos dias 8, 9 e 10, inclusive - juntamente com - expressamente proibido - em duas metades iguais - sintomas indicativos - há anos atrás - vereador da cidade - outraalternativa - detalhes minuciosos - a razão é porque - anexo juntoà carta - de sua livre escolha - superavit positivo - todos foram unânimes - conviver junto - facto real - encarar de frente - multidão de pessoas - amanhecer o dia - criação nova - retornar de novo - empréstimo temporário - surpresa inesperada - escolha opcional - planear antecipadamente - abertura inaugural - continua apermanecer - a última versão definitiva - possivelmentepoderá ocorrer - comparecer em pessoa - gritar bem alto - propriedade característica - demasiadamente excessivo - a seu critério pessoal - exceder em muito.
Li isto hoje e, acossado de trabalho, lembrei-me da Estilística da Língua Portuguesa do professor Rodrigues Lapa, a propósito do haver ou não sinónimos e fui a correr à estante para poder copiar este seu excerto: «pode, ao princípio, dar-se o caso de duas ou mais palavras designarem o mesmo objecto. É um momento fugaz; logo o espírito reage para destruir o perigoso equilíbrio; introduzindo cambiantes de sentido, promovendo a diversificação».
«Momento fugaz», escreveu o mestre. Haverá momentos não fugazes? Felizmente não, e felizmente há a inutilidade da expressão, reiterativa, tautológica, cheia de belas inutilidades frásicas, de ecos de sensibilidade fonética.
Abençoadas pois as tautologias, sem elas a vida, vivida como eu a vivo pela literatura, seria tão breve quanto ressequida.