Em matéria do que se chamou "Acordo Ortográfico", sou contra. Absolutamente contra. Nem morto de morte matada ou morrida.



A contemplação da palavra

Uma das maravilhas ultramarinas do modo de ser português é a palavra encontro pronunciar-se como café. Dois amigos que se querem rever perguntam-se quando poderão tomar um café. Quem anda da vida desencontrado sente-se diante de uma chávena de café. Na aridez da monotonia social em que nada se encontra porque nada surge, vive-se a vida de café. Por outro lado, lentamente, foi-se perdendo o chá e com ele as boas maneiras, foi-se descafeinando a existência, tornando-a uma série televisiva interminável, a vida própria real subjugada à vida irreal da personagem dos outros, obrigado mas à noite quero dormir não tomo café. Uma das maravilhas da língua portuguesa, carregada de História e ansiosa de futuro, é cada palavra ser uma floresta mágica de sentidos, as palavras terem odor, escorrerem significado, assustarem de tão densas, cada uma um grito visigótico na noite, uma negra queimada ao entardecer e a contemplação moura ante a palavra proibida de dizer-se.