Em matéria do que se chamou "Acordo Ortográfico", sou contra. Absolutamente contra. Nem morto de morte matada ou morrida.



Os cantos do quarto

Fazer com que a ideia motora, a que explica o insólito e dá finalmente coerência à ideia, possa surgir aposta de seguida ao vazio lógico, para que o leitor a experimente como se ensaisse rolha em gargalo, supõe uma mestria que não está ao alcance do escrever ao acaso da imaginação.
«Certa noite, a mãe da criança entrou no quarto, olhou para o berço e viu-me sem cabeça».
Surge assim, meio Kafka, meio Poe, este noção aterradora, na escrita de Carlos de Oliveira.
«Sem cabeça», pergunta-se ele escritor, fazendo-se eco do grito de surpresa do seu leitor.
Segue-se a resposta. Por etapas, patamar a patamar no edifício da Razão, infestado pelas ratazanas do horror.
Primeiro, a tranquilidade de estamos no campo da ilusão. «O quarto mal iluminado, as cortinas do berço corridas, deram-lhe essa impressão».
Depois, a irrupção da realidade, tão brutal como que se julgara ter sido o verdadeiramente acontecido. «Desatou a gritar. A aranha era redonda, media mais de um palmo e cobria-me a cara toda».
É isto que faz perceber que estamos ante um grande escritor, a exigir um grande leitor, aquele que não espera que lhe expliquem, idiotizando-o, que o não ver faz pensar por vezes no não existir o que não se vê.
Ah! tudo termina domesticamente. «A criada apareceu, esborrachou-a com a vassoura». Só que a vida é mais rica do que a capacidade de a matarmos. «Quando a carcaça rebentou, saltaram os aranhiços. Uma dúzia a fugir para os cantos do quarto».
É Finisterra, Paisagem e Povoamento.