Em matéria do que se chamou "Acordo Ortográfico", sou contra. Absolutamente contra. Nem morto de morte matada ou morrida.



25/04/13

A papiação em patuá...



É o patuá de Macau, dialecto de lonjura e nostalgia.

«Dóng dóng-dóng. dóng-dóng Sium Capitám.

Ispada na cinta Co rota na mám.

Ade tá guní Já cai na quintal.

Chácha vêm cudí.

Suzá su avental

Balichám salgado.

Tacho ta fritá;

Nôs pobre-limpado.

chubí pám tocá.

Drêto sã Mui-Mui.

Co róta rutiá;

Nhum olá amui, Senti mám cuçá

Chico papaia perna can-can Nhónha erguí saia, Chico cai na chám.»

[texto integral aqui, incluindo versão cantada]

Muller


Somos nós mais a doçura carinhosa da Galiza, com quem somos uma só Nação, num poema sobre a mulher [muller], a fonte eterna do duradouro sentir, mesmo que da precária sensação.


«Tan só muller en pozo de dozura.
Remansado sanguear, o fuxitivo
do tempo, xa os sentidos me dobrega.

Muller pola ansiedade. Desde a cima,
vestida de luceiros. De arociris.
Iconos doces en oscuros túneles.

Luas lascivas. Sede encarcerada.
Cinzas serenas, surtidor de fábulas,
pebeteiros en claves plenilunios.

Cimento da morriña amamantándose
un amarelo sol con luz de enigma,
o "si" e o "non" tremando na ternura.

Lume en rescoldo xa. Muller transida
daquelas maravillas en conxuro,
desfollo os "non me olvides" nas corolas.»

Tudo o mais aqui. Escreveu Pura Vázquez

23/04/13

A Gramática Portuguesa à procura de Ruben A.


Transcrevo tal qual consta do convite que está a ser divulgado:

«A Sociedade de Língua Portuguesa leva a efeito no próximo dia 30 de Abril de 2013 , terça-feira, pelas 20 horas, no Hotel Açores Lisboa, Av. Columbano Bordalo Pinheiro, 3, em Lisboa (esquina com a Praça de Espanha), um jantar temático "À Mesa com José António Barreiros", autor de vários livros nas áreas jurídica, ficção e ensaio histórico, que proferirá uma conferência subordinada ao tema "A Gramática Portuguesa à procura de Ruben A."
O preço do jantar, em regime de bufete, sentados, com bebidas incluídas é de 22 euros.
Marcação até ao dia 26 por sms para os telefones 914132418 ou 968099698, ou por email para jantarestematicosslp@hotmail.com

Com os meus cumprimentos
Benjamim Monteiro»

09/09/12

"Indústria" bancária...

Nada como uma boa terminologia, o politicamente correcto, a nomenclatura a legitimar a ideologia. É por isso que as palavras não são inocentes. Horta Osório, o golden boy do Lloyd's, numa entrevista a que imprensa financeira deu grande relevo, referia-se à actividade bancária como uma "indústria"!
Indústria? Mas acaso produz algum bem, coisa que se materialize, trabalho que se veja, ou é apenas um comércio, o negociar com tempo e, por isso, actividade considerada já pecado pela própria doutrina Católica - pois que o tempo, segundo ela, é algo que só a Deus pertence [vide São Tomás, o aquinense, aqui]?
Mesmo deixando os recônditos - afinal tão volúveis - do que da religião decorre, de facto, "indústria bancária", só mostra a necessidade de esconder pelo termo correcto a consciência da incorrecção.

11/08/12

Ficaram-me os olhos

«Ficaram-me os olhos» escrevi há pouco, uma daquelas frases que se usam sem pensar porquê, talvez porque vindas da infância doméstica ou da escola onde nos ensinam a ler, ou do liceu quando nos estimulam a não desistirmos de ler. Em alguma boca, em alguma página a vi que são ditos que não se adivinham. Não é em rigor a expressão castelhana "se le iban los ojos", embora com ela comungue um pouco a ideia. Na nossa, os olhos ficam como se presos a algo que, desejado, deixámos para trás, ao não o termos, querendo-o, na dos nossos vizinhos há um irem eles naquilo que, apetecido, foi seguindo o seu caminho, deixando-nos. É a diferença entre o inalcançado e o inalcançável. Assim se compreende a saudade portuguesa, anseio de casa, desejo de colo.

31/07/12

Bilhostre

Veja-se o que é a potência de uma língua que permite a Manuel Teixeira Gomes - exilado Presidente convertido, enfim à escrita - numa carta escrita a João de Barros dizer que havia chegado enfim o momento de descrever o que tinha sido a sua vida pela sua pena «matéria preferível à que dariam os perfis dos canalhas, bilhostres e malandrins, com quem tive de me haver no decurso desta minha já tão longa e acidentada vida».
Dois anos inquilino forçado no Palácio de Belém, vindo da Embaixada em Londres, referia-se aliás a esse período como o do «extenso lodaçal».
Guardem-se, pois, as palavras, como pedras, para uma primeira necessidade em caso de aperto!

15/07/12

A recusa de ser minúsculo

Hoje fui cuidar do meu jardim, tratando de um dos blogs onde o matagal cresceu, este. Dediquei-o à língua portuguesa. O desejo nasceu de um acto revoltoso de vontade, o recusar-me a escrever Domigo com D minúsculo, porque os dias da semana têm uma história de sacralidade que é incompatível com os que, como se numa esquadra de polícia, tornam o pulsar da vida o preenchimento de um formulário. Ainda por cima, o Domingo, dia sagrado para quem tem Fé, dia da liberdade para os que trabalham. Logo hoje que o Sol alumia as ideias.

21/08/11

A mão estendida, orgulhosa!

A língua não é propriedade do Estado, sim património da Nação, porque é a essência anímica da Pátria. É por ela que nos distinguimos de outros povos, é por ela que formamos o nosso modo sentimental de ser. A gramática é sua espinha, a ortografia apenas a sua pele. O Estado não tem o direito de impor o modo de falar, porque a tanto se opõe o foral livre do seu Povo. Por mais amanuenses do verbo, burocratas do dicionário, escribas arvorados em escreventes, ela viverá, uma vida própria, mutante, terra de liberdade e de pujante vitalidade. 
Por tudo isto sou contra o Acordo, recusar-me-ei ao Acordo. Nem que seja o último a escrever com erros de palmatória, estenderei, orgulhoso, a mão!

15/06/11

Um boum xeforço

Definitivamente vou resolver comigo esta do Acordo Ortográfico. Primeiro, não tenciono respeitá-lo! Segundo, vou dar-me a liberdade de inventar uma gramática que não precisa de ser inventada, puramente fonética, em que se escreve como se ouve. E achim axo ca milore maneira dum óme ça fajer cumprender inda é esta daxer o Tóino magala caescrebe à xua cumberçada Mariajinha uas cartinhas damôri xinssero e ca ça leiem a modos caxim. Xa num gustarem daler num digam canão é um boum xeforço.

11/06/11

A Cidade do Mistério

Reconheça-se. Talvez tenha sido com o Aquilino Ribeiro que pela última vez se colocou a questão do vocabulário, da terminologia e da nomenclatura na língua portuguesa, em suma, que vantagem há e se problema não há em usar-se na sua máxima extensão as potencialidade que o verbo lusitano oferece. Um amigo meu que faz dos palavrões forma de exprimir sentimentos, dizia, a justificar-se ante aquilo em que uma pertinaz escuta telefónica o surpreendeu, que usava o léxico português em tudo quanto ele permitia, nisso incluindo a linguagem vicentina.
Por causa do Gomes Leal, cuja biografia sigo, reencontrei, na inesperada estante de amarelecidos livros que me ladeia nesta casa cercada de Natureza onde veraneio, um Alexandre Herculano, um Camilo, mesmo um Guedes Amorim e um João Ameal. E não faz dúvida que hoje os nossos melhores escritores não estão muito além dos piores desse tempo. Saberão criar sensações ou arquitectar enredos, terão a capacidade de tornar narrativas em ideias. Mas o uso profundo da língua e toda a sua panóplia de utensílios, esse perdeu-se.
Esperando na «insipidíssima e materialíssima Rua dos Fanqueiros», Gomes Leal lembra a Guerra Junqueiro, morto, a sua promessa de que daria notícias: «Prometeste, ó dilecto amigo, ó singelo Buda dos Algarves, gandaeiro de Quimeras, triste pelingrino da Ilusão. humilde filho das ervas, irmão das violetas, amigo das andorinhas! - escrever à Mocidade, quando de encontrasses nas alamedas estreladas que vão desembocar na Cidade do Mistério, e de lá nos mandares saudades, ou novas tuas, ou recados...».

05/03/11

A gíria e o calão

Criptografado, o calão começou por ser a linguagem do fraco contra o poderoso, do conspirador contra o tirano. Di-lo Aquilino Ribeiro na sua apresentação ao livro de Albino Lapa, o Dicionário de Calão que filei num alfarrabista 
É um livro risonho, de palavars que estalam no ar como chicotes. Não é só a língua chula e de viela, é o étimo perfeito do linguajar popular, zombeteiro e altaneiro, pulante e pilha quando não desarranchado e vadio. É o português onomatopaico e singular que nenhum Acordo torna ortográfico, nenhuma Academia borla de doutorice. Não é o português retórico nem de escrivães, falar de escreventes ou de serventes.
Não é a língua de trapos, gaga quando entaramelada, nem a língua de palmo, sofrida e revista, limpa de gralhas e idiotismos mil.
É a gíria e com ela o giro, o passeio da Pátria de fala pela Nação que sabe ler.

04/12/10

Pechinchinho

É carinhoso esse mundo dos diminutivos. Partilhamo-lo com os galegos. Um estudo linguístico talvez nos conduzisse e encontrar na morfologia das terras ou na antropologia física das gentes essa razão: onde termina a geografia começa a zoologia humana. Nesta citação, de 1926, de uma obra do Padre Ernesto Ferreira sobre a alma do povo micaelense, cruzei-me, porém, com a carinhosa expressão do carinho: «necessário é, porem, confessar que de todos os diminuitivos o mais carinhoso é o adjectivo pechinchinho ou chichinho. e não tem sabor tam agradavel esta palavra, que diz o mesmo, e talvez melhor, que pequenino?».
Então digam-me que não é magnífico e bom um pechinchinho momento de atenção, nem que seja descobrir no que dizemos o melhor do que poderíamos ter dito?

11/04/09

La polareda

Voltei ao mirandês, ao livro Las Cuntas de Tiu Jouquin. Li outro conto, de novo a soletrar as palavras, a ouvi-las como um murmúrio dentro dos ouvidos, a tomar-lhes a grafia. Desta vez foi uma história de guardas e de contrabandistas, de despovoamento, do virar do tempo, o relatório «dua tierra zaparcida». Já disse que o autor escreve sob um pseudónimo, o de Francisco Niebro. Lia o narrador tudo o que podia, livros velhos, livros de igreja. «Molhaba l dedo andicador na léngua e ibalos çfolhando debagarico, mas la polareda era tanta que yá me sabie na boca a chapéu bielho».
La «polareda», o pó, em que tudo se torna, mesmo a arrogância das línguas nacionais, ditatoriais. «"... L mirandés ye ua lhéngua que se eidentefica cun personas. Ten rostros». Sim.Tem rosto, tem alma, tem um extraordinário modo de ser.

25/03/09

Pertués pul meio

Há tanto que se perde na vida, tanto que se encontra por acaso. Foi hoje no Círculo das Letras, ali à Óscar Monteiro Torres, porque merendámos perto, um pai e seus três filhos. Lá estavam, discretos, fruto de uma editora que entretanto soçobrou, a Campo das Letras. Escritos em língua mirandesa. Livros. Trouxe um deles, maravilhado: Las Cuntas de Tiu Jouqin, escrito por Francisco Niebro, nome literário de um assistente da Faculdade de Direito.
Magnífica língua esta: «cque me lembra, siempre fui boubico por cuntas. Squecie-me a oubir-las. Mie bó Ana, mie mai e miu pai cuntórun-me muitas. Mas, quando penso en cuntas, lembra-me simpre tiu Jouqin. Moraba a la mie puorta e yá l conheci biello».
O livro lê-se foneticamente, como se italiano fosse, para que a sonoridade baile nos ouvidos. Das narrativas só a última é da autoria do Tiu Jouquin, as outras são ficções em sua homenagem. Ouvidas na língua de Sendin, o Tiu «cuntaba-las siempre an sendinés, mas as la bezes ponie-le uas bozes de pertués pul meio quando falava Dius ó algue pessona amportante».

18/03/09

Problemas de crescimento

Tenho uns alertas no Google para saber o que vai acontecendo nas áreas que me interessam ou naquelas de que não me posso desinteressar. Um dos alertas refere-se ao que vai havendo sobre «advogados». Ora eis a razão pela qual ainda consegui o que se chama uma barrigada de riso. A notícia vinha assim: «Advogados do Minhocão da Rocinha são funcionários do vereador Claudinho da Academia».
Espantosa língua de facto! Advogados... do Minhocão... da Rocinha, lol lol, super lol !
Morto de riso, quase sufocado de tosse, que isto das alergias não dá alegrias, fui ver o que se passava em matéria de Minhocão. A notícia, como toda a boa notícia que se preza, esclarece: « Os advogados que assinaram o pedido de liminar para que fosse impedida a demolição do prédio conhecido como Minhocão, na Rocinha, são servidores públicos comissionados, nomeados no gabinete do vereador Claudinho da Academia (PSDC)».
Pronto! O Minhocão é um prédio. Ah! Ecco! Vendo por aqui, percebe-se o porquê de tal nome.
Só que o riso ainda haveria de voltar, mostrando que não há tristeza que sempre dure. A notícia remata: «Apresentamos este projeto em 2007. Mas até hoje não foi votado. Enquanto isso, a Rocinha foi crescendo. Se não parar de crescer, a Rocinha não vai ter mais jeito - reclama».
Claro: Rocinha não pode crescer mais, depois de tanto ter crescido o Minhocão. Faz sentido. Um bom dia para todos.